Vigilância Digital Extrema: Como Smartphones da Coreia do Norte Monitoram Cidadãos

Smartphones utilizados na Coreia do Norte operam com uma camada de software projetada para vigiar os cidadãos. Uma análise de dois aparelhos contrabandeados, incluindo o modelo “Samtaesung 8”, confirmou a presença de uma ferramenta no sistema operacional que realiza capturas de tela aleatoriamente e bloqueia conteúdos.

As descobertas revelam como o governo modifica versões antigas do Android (10 e 11) para implementar ferramentas de controle. Apesar de manter a interface do Android e funcionar normalmente, os aparelhos bloqueiam funções, como acesso à internet global, e possuem mecanismos ativos de censura que reescrevem mensagens digitadas pelos usuários, além de restringir a instalação de aplicativos a processos físicos e burocráticos.

Agências de imprensa estatais e o governo classificam essas restrições como medidas de defesa contra forças imperialistas, principalmente os Estados Unidos. Em 2020, o líder Kim Jong-un assinou uma lei que proíbe o consumo de mídia estrangeira no país, incluindo conteúdos sul-coreanos, o que pode explicar as restrições em smartphones e aplicativos.

Vigilância Através de Capturas de Tela

O recurso mais invasivo detalhado na análise é um sistema de monitoramento visual embutido. O software do telefone realiza capturas de tela automáticas e silenciosas sempre que o usuário abre um aplicativo. Essas imagens são salvas em uma partição oculta e criptografada do armazenamento, impossível de ser acessada ou apagada pelo dono do aparelho, mas disponível para inspeção pelas autoridades.

O funcionamento corrobora denúncias anteriores sobre a infraestrutura de vigilância do país. Em junho, uma reportagem já havia detalhado um mecanismo similar em outro modelo norte-coreano, que registrava a tela do usuário a cada cinco minutos, criando um histórico permanente de atividade.

Além das capturas de tela, o sistema operacional também é modificado para impedir o uso de termos proibidos ou politicamente sensíveis. Durante os testes, foi constatado que digitar “Coreia do Sul” seria impossível: o software intervém automaticamente, substituindo o nome do país vizinho por asteriscos ou pela frase “estado fantoche”. Outros termos comumente utilizados pelos sul-coreanos também são corrigidos.

Bloqueio de Arquivos e Aplicativos Restritos

A experiência de uso do Samtaesung 8 — aparentemente baseado no Huawei Nova 9 — é restrita a uma intranet nacional, sem conexão com a internet global. O próprio ícone de Wi-Fi na central de controle não funciona, sendo necessário utilizar um aplicativo próprio do governo para estabelecer uma conexão.

Além disso, os aparelhos vêm pré-carregados com aplicativos que imitam interfaces populares, como jogos, streamings e mapas, mas possuem funcionalidades limitadas.

Para impedir o consumo de mídia estrangeira, o sistema utiliza um protocolo de assinatura digital. Se um usuário tentar transferir um arquivo de vídeo, foto ou música que não possua a assinatura criptográfica do governo norte-coreano, o arquivo é rejeitado e deletado automaticamente. A instalação de novos softwares também é restrita. Não há uma loja de aplicativos acessível online e, para instalar qualquer programa, o usuário deve visitar uma loja física aprovada pelo governo, onde técnicos realizam a instalação via cabo.

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